Como todos devem saber, nos últimos dias um furor cortou a internet: Documentos secretos americanos vazados do site wikileaks vieram à tona. Antes de opinar sobre o assunto, iniciarei uma leve reconstrução dos fatos que compreendi até agora.
O site criado pelo australiano Julian Assange, nomeado “wikileaks” (leak, em inglês, significa vazamento), mostra um longo histórico de denúncias contra governos e instituições privadas. Essas denúncias podem tangir tanto crimes de guerra quanto a política interna de determinados países. Esse “leaking” de informações ocorre da seguinte maneira:

Retirado amigavelmente do nosso querido e mal-letrado site da Folha
Para resumir a imagem (ou para você que ficou com preguiça de a ler), o site é confiável, assim como suas informações.
Tamanha confiabilidade gerou dor de cabeça para muitos departamentos de governos nos últimos 3 anos, como por exemplo, com a exposição do vídeo de soldados americanos matando civis no Iraque com um helicóptero modelo Apache. O episódio causou repercursão por todo o mundo, sendo noticiado nas principais redes de TV da Europa e E.U.A, e voltou os holofotes para o nome “Wikileaks”.
No último mês, ocorreu o mencionado episódio que inicia esse monólogo. Mais de 250.000 documentos da diplomacia americana vazaram do gabinete de segurança interna do governo americano. Esses documentos são enviados pelas embaixadas dos Estados Unidos em diferentes partes do mundo, e relatam ao Big Brother todo o tipo de informação possível sobre o país em que os diplomatas se encontram. No fim das contas, mais de 270 países, incluindo o Brasil, estavam sob a mira de espionagem do Tio Sam.
Se você ainda não entendeu a profundidade do ocorrido, vou começar a exemplificar alguns dos diversos documentos em questão:
* O rei Abdullah, da Arábia Saudita, repetidamente pediu aos EUA para atacar o Irã e destruir seu programa nuclear, além de, segundo registros, ter aconselhado Washington a ‘cortar a cabeça da cobra’ enquanto ainda havia tempo.
* Representantes dos EUA e da Coreia do Sul discutiram a possibilidade de uma Coreia unificada se os problemas econômicos da Coreia do Norte e a transição político no país levassem o Estado a implodir. Os sul-coreanos chegaram a considerar incentivos econômicos à China para ‘ajudar a aliviar’ as preocupações de Pequim sobre o convívio com uma Coreia reunificada em ‘aliança benigna’ com Washington, segundo o embaixador americano em Seul.
Não obstante, o documento ainda mencionava líderes políticos de maneira direta:
Presidente da Argentina, Cristina Kirchner
O Departamento de Estado americano pediu à embaixada em Buenos Aires informações sobre “o estado de saúde mental” da presidente, segundo um dos documentos vazados, informa o jornal espanhol “El País”.
Presidente da Venezuela, Hugo Chávez
Um vice-secretário americano, Philip Gordon, conta uma conversa que teve com um conselheiro do presidente francês, Jean-David Lévitte, na qual foi dito que Chávez está “louco” e que até mesmo o Brasil não podia apoiá-lo. Outro documento mostra que a diplomacia americana trabalhou para isolar o presidente venezuelano.
Primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi
Um importante diplomata o descreve como “irresponsável, vão e pouco eficaz como líder europeu moderno”. Outro documento o descreve como “frágil física e politicamente”, que não descansa apropriadamente por causa das festas que dá até altas horas da madrugada.
Líder líbio, Muammar Gaddafi
Um texto diz que Gaddafi é “quase obsessivamente dependente de um pequeno núcleo de funcionários de confiança” e aparentemente não pode viajar se não estiver acompanhado de uma “voluptuosa” enfermeira ucraniana.
Acredita-se que Gaddafi tenha medo de voar sobre o mar e de pernoitar em andares altos de edifícios.
Isso foi apenas a ponta do iceberg. O documento mencionou muito, mas muito mais que isso. Aqui está uma versão com um pouco mais de coisas. Aliás, o New York Times vai responder processo por estar com esses documentos.
Com essas afirmações, uma tensão diplomática foi imediatamente gerada (com exceção da Itália, já que as informações sobre o Berlusconi não mostraram nada inédito), além de colocar a suposta democracia americana em pauta.
Após jogar a merda no ventilador e vê-la voar para todo canto, Assange enfrentou a fúria de toda uma corja de poderosos (que estavam se cagando de medo). Imediatamente após a veinculação, uma suspeita de estupro o colocou na lista de procurados da Interpol, e seu site, Wikileaks sofreu uma série de retaliações, como o corte de meios para se realizar doações para o site (paypal, visa e mastercard), falta de host para hospedá-lo (a Amazon abriu as pernas para os políticos) e censura por gigantes da web, como a Google e aliados.
Hoje, o segundo homem mais procurado do mundo se entregou, e sua situação ainda está indefinida.
Ufa. Com tudo isso resumidamente explicado, podemos começar.
Inicialmente, o óbvio. Parabéns Assange! Você provavelmente vai morrer num lugar escuro e úmido, depois de dias de tortura, mas o que você fez foi um salto em direção à honestidade, transparência, e respeito ao público, por parte de governos no mundo todo.
Agora, ao assunto em sí.
A suspeita de estupro, que depois se revelou apenas uma suspeita de assédio sexual (obviamente feita com motivos políticos), é uma piada. É uma metáfora irônica da globalização parcial. Um assédio, cometido na Suécia, por um Australiano, e investigado pela Interpol (polícia inglesa). Nunca vi tamanho esforço para prender um assassino, um traficante, ou até mesmo o nosso querido Paulo Maluf, que tem um mandado de prisão emitido há anos. Logo, vou deixar o assédio sexual de lado, já que claramente é uma divergência (política) do que realmente interessa.
O vazamento de informações vai mudar o mundo como conhecemos. Na verdade, já está mudando.
Na sociedade, há a discussão sobre se o que o Wikileaks fez é certo ou errado. Os que são contra (americanos), afirmam que a exposição de documentos secretos vai prejudicar as relações entre os países, além de colocar indivíduos chave em perigo. Os a favor (o restante do mundo), afirmam que os documentos não só provam que toda a política externa dos Estados Unidos é errada, mas como a guerra no Iraque é totalmente infundada. Além disso, é divertido ver americanos de direita nervosos.
Leia as matérias para entender melhor o que eu digo.
Pois é. Agora expor a verdade virou um crime contra a democracia. Chega a ser ridículo, um país que prima pela liberdade de expressão e de pensamento, censurar de tal maneira o assunto. A pressão para abafar os podres do governo americano, vai desde o alto escalão político, até o nosso querido amigo Google. Eu mesmo, para conseguir os links para este post, sofri muito. Todos os portais de informação estão dando a menor atenção possível para o caso. Colocam na front page abaixo da Hebe com todo seu glamour, ou de maneira desorganizada e tendenciosa.
Pessoas importantes de toda a parte do mundo estão fazendo de tudo para bloquear essas informações, para diminuir o teor do conteúdo nelas presente, e para denegrir a imagem de um dos homens mais corajosos do século, perdendo apenas para o ex-marido da presidenta Dilma Rousseff. Porém, a internet é uma grande família. A represália já começou. Primeiro, o banco que congelou os bens de Assange foi invadido e quebrado por hackers, (para quem conhece, foi o grupo “anonymous”, o pessoal do 4chan). Não apenas atacando pelo sistema “DDoS” (distributed denial of service) os vários sites que estão aparando o wikileaks (amazon, visa e master incluídos), uma força tarefa para criar mirrors (espelhos) do site já conseguiu com sucesso, a criação de mais de 500 destes, garantindo assim a permanência do site online. Em resumo, estamos na nossa primeira guerra virtual mundial.

eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
E minha avó dizia que a terceira guerra mundial iria ser por água. Acho que ela errou.
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